CACHOEIRA DO SUL PREVISÃO
Cátia Liczbinski

A atual crise da fome no Brasil. Você tem fome do que?

"E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia" ((João Cabral de Melo Neto, "Morte e Vida Severina")
A cada dia a sociedade brasileira se surpreende negativamente com os preços dos alimentos. Segundo estudo do grupo "Alimento para Justiça" da Universidade de Berlim, 125 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar e 19 milhões passam fome extrema.
A realidade é dura e afeta os pobres que gastam proporcionalmente mais do que ricos para se alimentar, sendo os mais vulneráveis os lares com as mulheres e pessoas não-brancas. A falta de comida na mesa está em quase 60% da população brasileira, 59,4% dos domicílios brasileiros.
Segundo o Atlas da Fome no Brasil, a fome tem cor e tem gênero, atinge primeiro as mulheres que são as primeiras a perderem direitos como postos de trabalho. No caso das mulheres negras, a situação é pior, por conta do racismo estrutural que acomete a população negra.
O peso do machismo e do racismo impede as chances de buscar um futuro melhor, principalmente no que tange à geração de renda, o que faz a fome acometer famílias lideradas por mulheres.
Para o economista Nilson de Paula (Rede Penssan) o cenário em relação à fome para 2022 é péssimo. Entre 2018 e 2021, os alimentos ficaram, em média, 43% mais caros para o consumidor final.     
De acordo com ele, dois fatores são fundamentais para a crise: a inflação e o desemprego que, segundo os prognósticos econômicos, devem permanecer em situação preocupante nesse ano de 2022, basta observar por exemplo, o preço absurdo da cenoura em março (ocupando o lugar do tomate, carne e alface), quando o quilo chegou a R$ 20. Nesse sentido a inflação voltou a níveis preocupantes no Brasil no último ano, agravada pela guerra na Ucrânia.
Além da substituição dos alimentos, como a coxa de frango pela carcaça, os pratos estão cada vez mais vazios: 24% dos entrevistados pelo Datafolha, divulgada em março, consideram que nos últimos meses a quantidade de comida disponível em suas mesas foi inferior à necessária para alimentar a família.
A falta de comida na mesa evidencia-se nas famílias com menor renda familiar com até dois salários mínimos (R$ 2.424), e é recorrente em 35%. Para 42% das famílias com mais de dez salários mínimos de renda a quantidade disponível de comida foi considerada mais do que suficiente. Trata-se de um grupo seleto. Uma renda mensal média de R$ 10.812 coloca o cidadão entre os 5% mais ricos no Brasil (IBGE, 2020).
Os pobres comprometem mais de 20% da própria renda para sobreviver. Os ricos apenas 7% da própria renda para se alimentar. O Dieese calcula que a cesta básica afeta hoje 56% do ganho de quem recebe um salário mínimo.
Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil só deverá retornar ao nível pré-pandemia em 2024. A renda, situação territorial e localização geográfica são fatores para a situação alimentar de uma família. Políticas de geração de renda, investimento em logística e infraestrutura, diminuição do preço do petróleo (para impactar menos no deslocamento e no preço dos alimentos, além do gás de cozinha) e uma política de agricultura familiar, que permita a subsistência são passos importantes para combater a fome no país.
A situação é grave e seu enfrentamento depende de um conjunto de fatores como: políticas de distribuição de renda, emprego, saúde, educação e recuperação da qualidade do emprego. Assim, ao invés de observar-se um engenheiro civil dirigindo um Uber, este deveria estar trabalhando em uma indústria ou na construção, ou um psicólogo em uma clínica e não como pedreiro.
Para a economista Elaine Leandro Machado (UFMG), qualquer país que queira ser desenvolvido precisa diminuir seus níveis de pobreza. São necessários programas sociais de complementação de renda e geração de emprego e a recuperação do Estado como agente de política pública contínua, porque o mercado não faz política pública. Políticas públicas no campo da alimentação para se evitar a fome, independente do partido que está no poder.

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