CACHOEIRA DO SUL PREVISÃO
João Eichbaum

De mitos e doutores

Se há uma coisa que o povão assimila e abraça rapidamente, sem dar lugar para dúvidas, essa é a mitologia. Primeiro, alguém inventou deuses e o povão caiu nessa, colocando deuses no pico de suas imaginações, crenças e superstições. Inventaram reis, rainhas, príncipes e princesas e o povão a eles se dobrou. Inventaram papas, e o povão se acumula, se acotovela, se queima sob sol ardente ou treme de frio debaixo da chuva, na praça de São Pedro, no Vaticano, para ver o papa.
Ninguém ali se lembra de perguntar porque razão o papa só desfila debaixo de um baldaquim...Ora, ora, senhores, o papa não é bobo. Ele sabe que a cabeça dos santos apóstolos, que adornam com suas estátuas o entorno da praça, é servida como latrina para os pássaros.
Alguém inventou que a investidura no cargo de ministro da Suprema Corte de qualquer país, torna a pessoa que passa a vestir aquela toga um sábio, um ser superior, digno de ser chamado de Vossa Excelência.
Ninguém se dá ao trabalho de pensar que essas pessoas são iguais a todo mundo como animais humanos. Ninguém se lembra deles ou delas na solidão do WC, escravos das ordens que a natureza estabelece através dos intestinos, e que os iguala, sem piedade, aos mendigos, aos moradores de rua, a qualquer pobretão sem eira, nem beira. Ninguém se lembra deles submetidos ao humilhante exame de toque da próstata ou delas, entregues ao dedão do ginecologista.
O que o povão só enxerga são as vestes magníficas de reis, papas e rainhas, e as togas fulgurantes dos juízes das supremas cortes.
Por que o povão enxerga essas pessoas assim, como se elas fossem diferentes? Porque, em primeiro lugar, o povão não pensa: ele deixa que as instituições ou que outras pessoas pensem por ele, e se deixa engasgar pela mitologia. Ele adora mitos. Em segundo lugar, porque as pessoas que ocupam esses cargos se colocam acima dele, achando que, assim investidas, são contempladas pelo direito de se terem por melhor do que os outros.
Felizmente, no Brasil, boa parte do povo está acordando, especialmente com relação aos ministros da Suprema Corte. Mas, quem deu sinal para essa mudança não foi o povo e sim os próprios ministros. Eles começaram a se revelar através de votos e liminares, xingamentos recíprocos e ares de desdém. Eles próprios, os ministros, se desnudaram, exibindo suas limitações, suas fraquezas humanas, e de tal forma que nem a dignidade do cargo, a suposta dignidade do cargo, essa criação mitológica, as consegue esconder ou disfarçar. Eles deixaram de ser mitos, porque não souberam se comportar como tal. Não souberam mostrar que a Justiça não se confunde com a fraqueza dos homens. Não se encontraram no figurino "homo ex hominibus sublatus ad homines ipsos judicandos" (homens tirados do meio dos homens para julgar os próprios homens). Mas, nisso se pode desculpá-los: são doutores que não dominam o idioma no qual foram escritos os fundamentos do Direito no ocidente.

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