CACHOEIRA DO SUL PREVISÃO
João Eichbaum

Uma negra muito cobiçada

Ouvir o farfalho dela sobre o corpo, sentir sua textura fina e reluzente, arrancando suspiros e despertando desejos, era, em tempos idos, o sonho de poucos machos. Só homens talhados pela cultura, pelo raciocínio correto, pelo domínio do idioma, pela riqueza da síntese, pela circunspecção e pela reserva que apenas os sábios sabem cultivar, ousariam manifestar o desejo de tê-la consigo.
Ela não servia de prêmio para qualquer um. Não tinha sido criada para saciar desejos de mal intencionados, de homens que batiam em mulheres, de plagiários, de recalcados  pela reprovação em exames de qualidade para o exercício de grandes cargos públicos, de gente que diz que mata no peito, mas depois afrouxa o garrão. Não era confiada a homens de baixo teor intelectual, de homens que pintam cabelo, usam peruca, retocam as unhas e as sobrancelhas para aparecer bem no vídeo.
Poucos, sim, muito poucos seriam os machos que, ao recebê-la em seus braços, poderiam dizer: "sempre sonhei com você".
Ela  não se encostaria no corpo de um macho que não soubesse argumentar sem agredir, no de um pscicopata com cara de fantasma carrancudo ou no de um vaidoso de voz macia que ousa falar como se conhecesse os segredos do universo.
Ela só cairia bem no corpo de um macho que soubesse respeitá-la.
O brilho hipnotizante que ela irradia estava só destinado à embriaguez dos sábios.
Assim era ela. Mas, aos poucos a foram mudando. Começaram a lhe emprestar características ou a lhe anexar valores totalmente irrelevantes. Ao invés da sabedoria, que não tem distinções, os critérios para sua entrega começou a incluir aparências: cor e sexo. Tipo assim: hoje ela vai se aninhar no corpo do fulano, para prestigiar a cor dele; amanhã será a vez da sicrana, que não tem pênis e só faz xixi sentada.
E com tantas mudanças, seus orgasmos múltiplos de glória e poder passaram a enfeitiçar qualquer um que se submetesse à humilhação de beijar os pés dos políticos inescrupulosos, que têm cacife de semvergonhice suficiente para comprar almas e revendê-las ao diabo. E foi se expondo como objeto de ignomínia. Para tê-la, para encostar o pescoço em sua gola de rendas, até a farra de uma noite em iate de luxo já chegou a ser o bastante.
Todas as pessoas de boas intenções, neste país, querem que ela seja o que deve ser, mostrando um recato que imponha respeito e submissão.
Mas, para que isso aconteça, os políticos terão que deixar de tratá-la como quenga, como um objeto de leilão em prostíbulo, como prazer de aluguel que vai para os braços de quem promete mais, de quem  só contribui com sua vaidade para o mau uso do poder. Sim, ela precisa realmente ser respeitada para impor respeito, ela merece reconfiguração para aquele estilo que atraía confiança, poder e discrição, ela,  a negra formosa, cobiçada, que provoca orgasmos de poder, glória e vaidade em quem a tem sobre o corpo: a toga de ministro do Supremo Tribunal Federal.

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