CACHOEIRA DO SUL PREVISÃO

Briane Machado

O dia em que fiquei sem palavras

São quinhentas mil pessoas que não voltarão para casa, que não verão seus filhos crescerem, que não saberão o resultado daquele trabalho em que permaneceu executando por tanto tempo. 
Pessoas que deixaram tudo para trás. Os planos ficaram somente na ideia de acontecer, a vida não seguiu o curso tão sonhado. 
Pais não estarão presentes nos próximos aniversários de seus filhos, não acompanharão as suas formaturas depois de tanto tempo incentivando para que seguissem os seus sonhos profissionais. 
A vida de todos nós jamais será a mesma. 
Todo dia acordamos com o peso de sentir-nos incapazes de tomar uma atitude condizente com o que pensamos ser o significado de humanidade. 
Carregamos números em nossas lembranças. A rotina está arraigada pelo caos. Não vemos uma saída condizente com a sobrevivência. 
O fio de esperança está enraizado na dúvida, na negatória. Chegamos ao ponto de respirar e viver como se fosse a última vez. 
Ao escrever essas palavras percebo que viver passou a ser temerário. Não temos a menor segurança quando saímos de casa. 
A máscara virou a melhor aliada para contemplar a vida. Pela primeira vez, não queremos que elas caiam. 
Tudo que planejamos fazer está baseado na possibilidade de sairmos de casa sem que outras pessoas sejam afetadas. A culpa e o sentimento de ser uma bomba-relógio estão presentes no cotidiano assim como beber um copo d'água. 
O receio virou cumulativo: se antes tínhamos medo de assalto, hoje também sentimos ao ver alguém se aproximando sem máscara. 
Como sairemos da zona de conflito sem que haja um conflito mental extremamente desgastante?
Hoje, as preocupações comuns a todos nós são o recebimento da vacina e que consigamos manter a integridade física de todos com quem convivemos.
Futuramente, estaremos estabilizados para voltarmos ao "normal"? Teremos condições psicológicas de deixar o receio de lado para frequentar um restaurante? Enxergaremos o outro como uma ameaça ou um sobrevivente? 
Por enquanto, a vida continua do avesso. Estamos tentando manter o sorriso no rosto, a empolgação pelo trabalho, a esperança em um futuro melhor. Confesso que não é nada fácil.
Lidamos com fatos e informações demasiadas ao ponto de esperarmos a listagem de distribuição vacinal com mais motivação do que a lista de aprovação de um concurso público. 
Aguardamos o sopro de vida e jamais tivemos tanta resiliência. 
Menos um dia de espera, mais um dia de vida. 
Esse texto é dedicado a todos que perderam alguém para essa batalha tão cruel. A demora em receber uma dose de esperança jamais poderá ser esquecida. 
Não existem palavras para mensurar a dor. 
Sem mais.

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