Setembro Verde
Mais de 2,8 mil pessoas aguardam um transplante de órgão no RS
O mês de setembro é destinado a conscientizar a sociedade sobre a importância da doação e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas conversem com seus familiares e amigos sobre o assunto. A próxima quarta-feira, 27/9, marca o Dia Nacional da Doação de Órgãos, uma espécie de Dia D da campanha. A data foi instituída pela Lei nº 11 584/2007, com o objetivo de nos fazer pensar na importância deste ato de amor e altruísmo.
Apesar da ampliação da discussão do tema nos últimos anos, se trata ainda de um assunto polêmico e de difícil entendimento, resultando em um alto índice de recusa familiar.
A maior parte dos transplantes são realizados a partir de um doador cadáver, quando este sofre uma morte encefálica, ou morte cerebral. Não há, no Brasil, uma forma legal de se declarar doador ainda em vida para que, em caso de morte cerebral, esta vontade seja respeitada. Atualmente, a legislação brasileira determina que a família será a responsável pela decisão final e vem daí a importância da conversa com os familiares a fim de informá-los a cerca deste desejo.
De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES/RS), de janeiro a agosto deste ano foram 543 notificações de morte encefálica no Estado. Deste total, apenas 186, ou 34%, resultaram em transplante. Somente no mês de agosto, foram 69 mortes cerebrais, das quais 22 resultaram em doação de órgãos, um percentual de 32% - o segundo menor do ano, atrás apenas de janeiro, quando 30% dos casos de morte encefálica resultaram em doação.
Por que o número de doações é tão pequeno
Em nível de estado, a negativa familiar aparece como principal causa da não efetivação das doações. Em 162 casos a família optou por não fazer a doação. Este cenário é realidade no mundo todo e, atualmente, a Espanha é o país que tem a melhor taxa de aceitação da família, um modelo muito conhecido no mundo todo e que se tenta seguir.
Neste cenário, especialistas apontam a desinformação como principal motivo que leva os familiares a não aceitarem doar. Há descrença e dificuldade em entender o diagnóstico de morte encefálica. Outro ponto relevante são os fatores culturais e religiosos.
A demora para conclusão do processo de captação também não ajuda. Às vezes, os familiares acabam desistindo da doação por conta da demora, tendo em vista que o protocolo é bastante extenso e A Central de Transplante, às vezes, tem vários processos de captação ao mesmo tempo e não tem equipes suficientes para atê-los.
Essa realidade somente poderá ser alterada com educação e conscientização. É preciso que as pessoas conheçam mais sobre o assunto e, se eventualmente se depararem com um diagnóstico de morte cerebral na família poderão aceitar melhor esse diagnóstico e, quando possível, ter a iniciativa de doar.
O processo de doação de órgãos
O diagnóstico de morte cerebral é feito em três etapas. Nos casos de pacientes com quadro neurológico grave e suspeita de morte cerebral são realizadas duas baterias de exames clínicos, além de um teste de apneia, e ainda um exame confirmatório. São dois testes clínicos feitos por dois médicos diferentes e obrigatoriamente um deles precisa ser um neurologista. Depois há ainda o exame confirmatório.
Esse diagnostico, na maioria das vezes, é provocado por um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou um trauma de crânio, como por exemplo em razão de um acidente de trânsito. Uma vez conformada a morte cerebral, é realizada uma entrevista com a família do paciente a fim de saber se eles têm interesse em doar ou não os órgãos. Geralmente, o processo de doação de órgãos dura cerca de seis horas.
Quem pode doar?
Para a maioria dos órgãos não há um limite de idade. As exceções são coração e pulmão. Também não há uma mínima. Um recém-nascido pode doar. É claro que isso é bem menos frequente e por isso não ouvimos falar tanto sobre esses casos.
Quando não é possível doar?
Há condições que excluem a possibilidade de uma pessoa ser doadora de órgãos. No Brasil ainda não é possível um paciente HIV positivo doar, ou um paciente com tuberculose ativa, hepatite ou câncer. Porém, existe alguns tipos de tumores que não são impeditivos.
Há situações em que não é possível a captação em razão das condições do corpo do doador, como por exemplo, quando ele apresenta uma pressão muito baixa, que impede que passe pelo procedimento de captação sem que o coração pare. Ou no caso de uma infecção generalizada.
Cenário atual
Neste ano, de acordo com a SES/RS, foram captados 494 órgãos – 360 rins, 105 fígados, 23 pulmões e seis corações.
Os processos de doação de órgãos concluídos com sucesso no Estado neste ano resultaram em 339 transplantes de rim, 101 transplantes de fígado, 25 de pulmão, oito de coração, e um de fígado e rim. Entre os transplantes de tecidos foram 503 de córnea, 103 de esclera, 266 de osso e 12 de pele. Nestes dados estão incluídos órgãos captados no Rio Grande do Sul e em outros estados.
Atualmente, 2 877 pacientes seguem aguardaram por um órgão na lista de espera de transplantes no Estado. A maioria deles aguarda por um rim, 1 307 pessoas; 169 aguaram um fígado; 62 aguardam um pulmão; e 16 aguardam um coração. Já entre os tecidos, 1 202 pacientes aguardam por transplante de córnea e 121 aguardam por um transplante de medula óssea.
Como ser um doador
Atualmente, não há nenhuma forma legal de se de tornar doador de órgãos após sua morte. A decisão quanto a isso será da família. Portanto, a conversa com a família sobre o tema é fundamental para quem deseja, em caso de morte encefálica, ser doador. Caso seja seu caso, converse com seus familiares e deixe claro sua intenção.
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